Avanço do petróleo acende alerta para impactos em manguezais e corais raros na costa do AP




MPF aponta divergências sobre perfuração de poço de petróleo no Amapá
A descoberta de petróleo no poço Morpho e a autorização para a Petrobras perfurar mais três poços no Bloco FZA-M-59 consolida o avanço da exploração na Bacia da Foz do Amazonas, mas coloca no centro do debate a segurança ambiental da costa do Amapá. A região abriga dois dos ecossistemas mais sensíveis do planeta: o Grande Sistema de Recifes da Amazônia e o maior corredor contínuo de manguezais do mundo.
Entre a expectativa de desenvolvimento econômico e o temor de impactos irreversíveis, especialistas e entidades ambientalistas apontam que a área exige cautela extrema e um nível de conhecimento científico que a ciência ainda busca alcançar.
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Em entrevista à Rede Amazônica, a doutora em Geologia e Geofísica Marinha, Valdenira dos Santos, explicou que a costa amapaense possui características hidrodinâmicas únicas que a diferenciam de qualquer outra bacia petrolífera do país, atingindo o nível máximo de sensibilidade ambiental (índice 10).
“Se a gente vier a ter um problema ambiental, é muito mais difícil fazer a limpeza, porque a maior parte da nossa costa é composta por manguezais e floresta de várzea”, disse a geóloga.
Riqueza biológica
Maior Corredor Contínuo de Manguezais do Mundo
Estendendo-se do Amapá ao Maranhão, a costa norte forma a maior faixa ininterrupta de manguezais do planeta. Formado por espécies como o mangue-vermelho (Rhizophora mangle) e o mangue-seriba (Avicennia germinans).
O ecossistema atua como barreira natural contra a erosão, armazena grandes volumes de carbono e funciona como berçário de recursos pesqueiros que sustentam a economia local.
Manguezais na costa do Amapá.
Reprodução/Internet
Corais Raros da Amazônia
A faixa costeira afetada pelas operações abriga dois sistemas biológicos considerados raros e cruciais para a biodiversidade marinha global.
Conhecido como Grande Sistema de Recifes da Amazônia (GARS), o conjunto forma um ecossistema mesofótico raro situado entre 70 e 220 metros de profundidade.
Diferente dos corais tropicais rasos, esses recifes prosperam sob a água turva descarregada pelo Rio Amazonas, abrigando mais de 40 espécies de corais (como o coral-pétreo Montastraea cavernosa), 60 espécies de esponjas e peixes de valor comercial.
Corais foram descobertos em maio de 2016 na costa do Amapá.
©Greenpeace
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Velocidade das águas e falta de dados sobre a costa
Enquanto a Petrobras concentra testes no mar profundo para verificar o potencial comercial da jazida, Valdenira chama atenção para um “gap” (lacuna) de informações na transição entre o alto-mar e o litoral.
“Conhecemos mais a borda da plataforma continental do que a interface do litoral em direção ao mar profundo. A nossa corrente marítima é extremamente forte, alcançando 2 metros por segundo, e as marés atuam de forma perpendicular ao litoral. Das correntes litorâneas, praticamente não sabemos nada”, contou a pesquisadora.
Risco cumulativo e a ameaça cotidiana
Ao g1, o Greenpeace Brasil divulgou que avalia que a promessa de arrecadação financeira não anula os riscos socioambientais e climáticos na Margem Equatorial.
“A abertura de novas frentes de exploração de petróleo pode trazer expectativas de investimentos, mas viabilidade econômica não apaga os riscos ambientais, climáticos e sociais”, manifestou a organização em nota.
A ONG pondera que a realização de operações simultâneas na área aumenta os “riscos cumulativos”. No leilão da Agência Nacional do Petróleo (ANP) realizado em 2025, 19 blocos foram arrematados na Foz do Amazonas e aguardam licenciamento, enquanto outros 36 seguem em estudo.
O Greenpeace apontou ainda uma incoerência entre as metas ambientais defendidas pelo Brasil no exterior e a expansão de frentes petrolíferas no território nacional.
“Não é possível defender uma transição justa no cenário internacional enquanto se insiste na abertura de novas frentes de exploração petrolífera . A abertura de novos poços de exploração de combustíveis fósseis e a justiça climática são caminhos incompatíveis”, ressalta a ONG.
Para a Dra. Valdenira dos Santos, no entanto, a discussão sobre a foz precisa encarar outro perigo que faz parte da rotina amapaense: a navegação pelo Canal do Norte.
“Hoje a gente já tem um perigo real e imediato à nossa porta. A entrada da hidrovia do Amazonas é aqui. Todos os dias temos navios-tanque passando e precisamos de um plano de contingência regional urgente para responder a esses riscos cotidianos, e não apenas ao que acontece no alto-mar”, declarou.
Preservação e dependência da água potável
A pesquisadora ressalta que o debate precisa equilibrar as metas de desenvolvimento com a sobrevivência das comunidades e o abastecimento de água no estado, além de superar a falta de formação científica local para monitorar esses impactos.
“Não se trata apenas de achar o meio ambiente ‘bonitinho’. Nós não sobrevivemos sem um ambiente sadio, e no Amapá temos uma dependência direta da água superficial para o abastecimento das nossas cidades”, falou Valdenira.
A geóloga aponta ainda a escassez de recursos e de mão de obra qualificada no Amapá para produzir dados sobre a costa.
“A capacidade instalada no Amapá para estudos marinhos ainda é mínima. A UFPA formou recentemente as primeiras turmas de pós-graduação em Oceanografia, enquanto o Sul e Sudeste têm cursos com mais de 50 anos. Precisamos capacitar pessoas e investir em pesquisas no próprio estado. Fazer ciência na zona costeira da Amazônia tem um custo alto, mas é indispensável”, reforça.
O que diz a Petrobras?
A Petrobras informou que atua com responsabilidade ambiental e rigor técnico na Margem Equatorial. A empresa destaca que tem experiência em perfurações de águas profundas e que os testes autorizados no Bloco FZA-M-59 buscam apenas avaliar a presença de petróleo comercialmente viável.
A estatal reitera que atendeu a todas as exigências dos órgãos reguladores e apresentou planos operacionais de emergência.
Infográfico mostra o local em que a Petrobras quer explorar petróleo na bacia da Foz do Amazonas.
g1



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